Estação Central

Julho 06, 2009

Os múltiplos orientes


Convém ler este post de Rui Bebiano sobre a separação entre Ocidente e Oriente, especialmente à luz da História, não apenas recente mas essencialmente da antiga, ele que a prolonga até à mítica queda de Tróia. Só falta, na minha opinião, a concretização desta ideia indo buscar Bizâncio. É que, e apoiando-me na tese avançada por Judith Herrin no seu Livro Byzantium: The Sursprising Life of a Medieval Empire (capa acima), Bizâncio foi contendo o avanço do Oriente islâmico e árabe na direcção da Europa ao longo do seu período de maior expansão. Sob forma de agradecimento, Constantinopla acabou saqueada pelos cruzados em 1204, no que acabou por ser o saque de cruzados cristãos à que era a maior, mais imponente e mais importante cidade cristã da sua era. Para se tentarem redimir terão surgido os rumores a denegrir a sociedade bizantina, coisa fácil de atingir, especialmente se ancorados na religião. Ainda hoje a expressão "burocracia bizantina" recebe um sentido pejorativo (apesar de a mesma burocracia ter sustentado um império que durou 800 anos).

Desta forma se podem referir os muitos "orientes" da história. Um deles é o actual, do Islão. Outro o antigo e clássico, que opunha gregos e persas (curioso que os bizantinos fossem vistos como "gregos" e "orientais"). Outro ainda o medieval, visto sob a sombra de Bizâncio e Constantinopla. Falta muita história oriental no Ocidente. E maior é então a nossa perda.

Record por desgaste


Já tinha visto Federer ganhar com e sem brilhantismo, lutando ou simplesmente passeando. Ainda não o tinha visto ganhar por desgaste, deixando simplesmente correr o tempo, mantendo o seu serviço e esperando que o adversário caísse prostrado.

Tive pena pelo Roddick, que foi atropelado nas duas finais de Wimbledon anteriores (adivinhem contra quem) e que ontem teria provavelmente ganho a qualquer outro (até ao Nadal, sim). Num jogo onde Federer lutava contra o recorde de Sampras, Roddick reencarnou Pistol Pete até onde pôde: serviço fantástico, rede impecável e uns winners a pedirem adversários mais... terrenos. Federer ganhou simplesmente os pontos principais dos tie-break e quebrou o serviço de Roddick uma única vez. Foi quanto bastou. O resto é história.

Julho 03, 2009

Jornalismo financeiro

Não é por ser um muito bom amigo que faço a publicidade. É por ser um muito bom amigo que faço questão de nunca me esquecer de o ler. É apenas e só por ser um excelente jornalista e estar a tornar-se num fantástico analista que o recomendo. E por escrever muito bem. Vale a pena ir ler o José Carlos Matias (sempre n'O Sínico), mas especificamente o texto dele que serviu de base à intervenção no Asia-Media Summit.

Muita gente poderia aprender com o que o Zé Carlos escreve. Eu sei que aprendo.

Julho 02, 2009

Carta ao Director e ao Provedor do Leitor do Público


Caros Srs. Joaquim Vieira e José Manuel Fernandes,

escrevo motivado pelo editorial de hoje, da autoria do Director, o Sr. José Manuel Fernandes (JMF). O motivo que me leva a escrever é a questão dos três manifestos, como os denomina JMF, «sobre política económica e investimentos públicos». Estes manifestos têm recebido da parte da comunicação social (na qual englobo os blogues) um dose elevada de atenção nas últimas semanas. A forma como o Público e o seu director trataram o segundo dos manifestos levantou até uma polémica, considerando muitos (onde me incluo, embora com menos veemência) que JMFdeu procedeu de forma incorrecta quanto à forma como o noticiou e comentou. Não vou, contudo, entrar agora por este caminho. A única nota que deixo prende-se com a forma como decidiu responder ao seu próprio colunista, Rui Tavares, na edição onde este atacava a situação. Isso demonstrou falta de respeito, de coragem e até de cultura democrática.

Aquilo que despoletou este comentário, no entanto, é o tratamento dado aos manifestos (agora três) dado por JMF no seu editorial. Escreve a dada altura JMF:

«o importante é centrar o debate nas propostas feitas e não em quem as formula, mesmo sabendo que uma foi avançada por economistas de vários espectros políticos, outra por académicos que se situam entre a ala esquerda do PS e a esquerda radical e esta por um grupo de pessoas de diferentes proveniências que procuram, sobretudo, apoiar as escolhas do Governo»

Ou seja, apesar de JMF pretender não centrar o assunto nas pessoas, acaba por o fazer à partida. Aponta o segundo manifesto à esquerda radical (presumo que qualquer partido à esquerda do PS seja "radical"). Pior, a "académicos", ou seja, usa um termo que é identificado frequentemente com pessoas desligadas da realidade, que se sentam nos seus gabinetes e analisam abstractamente os textos e relatórios escritos por outras pessoas como eles. Ou seja, gente que vive num outro micro-cosmos. Não é esta a interpretação de português mas é, sem ingenuidades, esta a intepretação que lhe é dada.

Já o terceiro manifesto virá de pessoas que poderão ser de diversas proveniências mas que serão essencialmente pessoas ligadas ao governo (em si não desqualifica nada). O pior é que, antes, cola este manifesto ao lobby das obras públicas, ao escrever «[o manifesto preenche o espaço de] alguns empresários ligados às obras públicas: (...) [o] actual presidente da Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas, está entre os seus subscritores».

Comparemos isto com o primeiro manifesto, subscrito por «economistas de vários espectros políticos», formulação sóbria, "respeitável" (peçamos emprestada a formulação de Vítor Constâncio) e neutra, que certamente só quererão o bem do país.

Em resumo, temos que o primeiro manifesto é bom, o segundo é mau e o terceiro menos mau. Não discuto a opinião de JMF, que a deve ter e a deve transmitir, mas considero a sua forma de abordar o debate, pela via pessoal e da desvalorização pessoal, como indigna de um director de um jornal como o Público.

Ao longo dos anos tenho visto o Público a ser um espaço de debate aberto, plural e desassombrado. Recordo o editorial de Vicente Jorge Silva, quando inaugurou a expressão "geração rasca" para se referir a uma geração da qual faço, tngencialmente, parte. Não tenho, mesmo hoje, razão para me incomodar com aquele editorial. Foi escrito em face de factos e com uma argumentação. Discorde-se ou não, era correcto e assumia uma postura de acordo com o que defendia no texto.

Não é o caso do que tem surgido no Público, jornal que tem publicado cada vez mais textos de opinião de qualidade duvidosa, com critérios editoriais que seguem o mesmo caminho (recordo que, no passado, questiounei a razão de ser do destaque dado a um livro de João Carlos Espada, conhecido liberal, opinião partilhada por JMF). Admito, são avaliações pessoais. Já o editorial de hoje não o é. É um editorial que propõe fazer algo não pessoalizar uma discussão) e faz de imediato o oposto. Tem uma atitude que, mais que indigna, é vergonhosa, para mais quando surge no seguimento de uma polémica sobre o mesmo tema. A um director do Público (de um jornal em geral, mas falo do Público por ser o "meu" jornal há década e meia) exige-se respeito e educação. JMF não demonstrou nenhuma destas qualidades, antes as descartou completamente.

Pois bem, esta terá sido a gota de água. A minha assinatura do Público online (com acesso ao Público PDF) expira nos próximos dias. Não a renovarei. Custa, é verdade, deixar de comprar o jornal que leio há tanto tempo, mas quando o jornal deixa de ser "o meu jornal", creio que é a melhor atitude. Continuarei a lê-lo, mas não mais a assinar. Será indiferente para os senhores, apenas uma gota no oceano, mas é para mim um acto simbólico (e não é pelo dinheiro, o qual posso facilmente dispensar). Lamento fazê-lo, mas o declínio na qualidade e a falta de respeito do director do Público para com as pessoas sobre quem escreve, para com os seus leitores ou simplesmente para com quem não está no mesmo campo ideológico levam-me tal decisão.

Os meus melhores cumprimentos e as melhores felicidades para um Público que espero que entre por outros caminhos.
Josão Sousa André

Julho 01, 2009

Walkman vs iPod


«My dad had told me it was the iPod of its day. He had told me it was big, but I hadn't realised he meant THAT big. It was the size of a small book. (...) As I boarded the school bus, where I live in Aberdeenshire, I was greeted with laughter. (...) It took me three days to figure out that there was another side to the tape. (...) portable music is better than no music. (...) "I remembered it fondly as a way to enjoy what music I liked, where I liked," [my dad] said. "But when I see it now, I wonder how I carried it!"»

via DER TERRORIST.

Também me lembro do meu walkman, um Sony preto que até conseguia chegar às 4 ou 5 horas de música desde que bem cuidadinho. Tinha uma colecção de cassetes para o usar (e no rádio de casa e da minha 4L e que se finaram na sua maioria quando a 4L se finou ao levar com um Rover de lado) algumas das quais eram tão tocadas que partiam a fita. A estas eu dava sempre um tratamento cirúrgico que consistia na excisão do material danificado (tesoura sempre à mão) e na junção de duas partes ainda saudáveis (fita não "comida") usando materiais não rejeitáveis pelo paciente (fita-cola da tesa muito bem cortadinha). Havia um salto na música mas era simplezinho e não estragava demasiado.

Entre as minhas cassetes preferidas estavam as seguintes:
- Uma selecção de músicas preferidas dos dois The Best of... dos The Smiths e outra dos álbuns The Best of... e The rest of the best dos The Pogues.
- Uma selecção da Brigada Victor Jara (cassete que recebeu o meu maior sucesso em intervenções cirúrgicas a meio da música Ao romper da bela aurora) a partir dos álbuns Eito Fora, Contraluz e Por sendas montes e vales.
- O Mutantes S.21 dos Mão Morta no lado A e T.V. Sky dos The Young Gods no lado B (convenci um DJ numa discoteca a fazer uma mistura das músicas Gasoline Man e Estranha Forma de Vida da Amália, coisas de miúdos).
- As duas cassetes com tudo dos Pixies.
- Lado A com The Glee Club (uma amiga deu-mos a conhecer) e lado B com American Music Club (idem, mas não me lembro que álbuns eram).

Ainda mais umas sobrariam, mas estas saltam de imediato à memória. Seria engraçado ver que tipo de misturas haveria nas cassetes de outras pessoas. Desafio portanto quem quiser a deixar algumas compilações que tivessem lá por casa. Tem é que ser em cassete. Compilações em CD ou mp3 não conta.

Junho 30, 2009

Muito individualistas, mas pouco liberais


A partir dos estudos revelados hoje sobre os portugueses e cujos resultados são apresentados no Público (de onde fanei a imagem acima), o director José Manuel Fernandes conclui (link para assinantes) que «[os estudos] são altamente deprimentes para quem crê que deve ser o Estado a tratar de nós em todos os momentos da nossa vida». Quer dizer, isto é a conclusão, porque depois, no texto, vi dizendo que os portugueses estarão "mais individualistas", "confiam menos no Estado", etc. Ou seja, a evolução da percepção e dos comportamentos é no sentido da individualidade, mas está longe (como se pode ver pelos gráficos acima) de dizer que os portugueses não confirão no Estado (como JMF quer dar a entender na sua introdução).

Para mim, o curioso neste estudo são os resultados apresentados no canto superior direito, onde se dão as respostas à pergunta "Quais os valores mais importantes?". É que os valores mais apontados são todos etéreos, daqueles que se espera que surjam um dia, já formados e sem necessidade de manutenção, assim como quem queira adoptar um filho com 18 anos, já na Universidade, com propinas pagas e bolsa atribuída. As escolhas recaem sobre "Paz", "Liberdade", "Justiça" e "Respeito pela vida". Só depois surge um valor de prática verdadeiramente individual: "Honra/Honestidade". Mesmo assim é valor relativamente simples de cumprir e que é sempre relativizado (quem não notou várias vezes ter recebido troco a mais e não disse nada?). Infelizmente, valores individuais que levam aos valores colectivos desejados, como "Bondade e compreensão", "Respeito pela Natureza/Ambiente", "Tolerância/Compreensão" e "Responsabilidade", caem todos abaixo das 25% de respostas, para o fundo da lista. ou seja, os portugueses querem ter "Paz" e "Liberdade" e "Justiça", mas parecem estar à espera que cheguem numa manhã de nevoeiro a cavalo no D. Sebastião e não parecem muito dispostos a mover uma palha por tal.

Quanto às questões de tolerância ("Se pudesse aceitava sr vizinho de...") são ridículas. Os valores reais, se surgisse tal hipótese, seriam sempre mais baixos. O interessante é ver que ainda há uma maioria de pessoas que não acha que deve ser cada um por si. Ou seja, ligando este dado ao facto de os portugueses continuarem a achar que os valores devem cair dos céus aos trambolhões, parece que os liberais, como José Manuel Fernandes, parecem ter ainda muito caminho para trilhar.

Suar

Junho 26, 2009

Recomendação rara


Ler o Carlos Vidal e o artigo que recomenda, a propósito da morte de Michael Jackson e da música afro-americana. A minha passagem preferida e que explica rapidamente o sucesso de Michael Jackson:

«The most successful jazz musician turned rhythm and blues producer, Quincy Jones, joined his immense talent with that of the leader of the most beloved of black singing groups – Michael Jackson of the Jackson Five»

a bold estão as duas palavras principais da passagem. Quincy Jones. Sem ele, Michael Jackson seria hoje um medianamente sucedido, medianamente feliz e medianamente negro cantor de R&B a vender medianamente essencialmente nos EUA.

Jackson four


Nas palavras (i)mortais de John Cleese no Memorial Service para Graham Chapman:

«He has ceased to be, bereft of life, he rests in peace, he has kicked the bucket, hopped the twig, bit the dust, snuffed it, breathed his last, and gone to meet the Great Head of Light Entertainment in the sky»

Terminando com: he is now an ex-Jackson. Melhor ainda. He is now an ex-Jackson 5. And the Jackson 5 are now Jackson 4.

Junho 25, 2009

Visitantes em museus (2)


No fim de semana em Paris acabei por ir a outro museu, o Musée d'Orsay. Na ala dedicada aos pintores impressionistas estavam três quadros da série de Claude Monet dedicada à Catedral de Rouen. Um deles era este acima, com o efeito matinal.

Enquanto observava os quadros passou uma outra visitante, americana pelo sotaque, que perguntou «Mas que é isto? É para mostrar que ele ia melhorando com o tempo?».

Tive vontade de lhe perguntar se tinha noção de estar num museu e não em frente à porta do frigorífico onde se penduram as pinturas do filho. De lhe perguntar se fazia a menor ideia de quem foi Claude Monet. De lhe perguntar o que estava a fazer ali. De lhe dizer que se atirasse da varanda para o Sena e, por misericórdia, se afogasse rapidamente. Mas não. Ignorei e segui para os seguintes. Um pensamento acalmou-me. Era também graças a estas pobres almas graças aos seus bilhetes, que eu podia ver aquelas obras ali, a meio palmo do nariz. Apesar de tudo, a ignorância e a estupidez sempre têm lugar no mundo da arte.

Confederações a um ano do mundial

Ontem, na Taça das Confederações, os EUA venceram a Espanha por 2-0. Verdade, os espanhóis jogaram com uma equipa a precisar urgentemente de férias, sem o seu melhor jogador do meio campo - Iniesta - os americanos estão a meio da preparação, os espanhóis ligam menos a esta competição que os americanos, deram um baile na segunda parte e só não marcaram por azar, etc, etc, etc. Por outro lado, os americanos chgaram às meias finais mesmo à rasquinha depois de terem perdido os dois primeiros jogos e não se pode dizer que sejam uma potência mundial. Que conclusões tirar?

Bom, a minha conclusão desde já é esta: o Brasil ganha o próximo Mundial. A Espanha, que muitos consideram a melhor equipa do mundo (e não vai ser esta derrota a alterar essa visão), não deverá fazer muito. O seu jogo é baseado num estilo de passes constantes e de fazer os adversários correr atrás da bola. Se isso funciona muito bem numa competição disputada com algum calor (como o Europeu do ano passado), acaba por não ser muito favorável numa competição a disputar com uma certa dose de frio, como o Mundial da África do Sul. Os adversários poderão - como os americanos ontem - correr o jogo todo atrás da bola sem sofrer o efeito do calor, o que significa que poderão reduzir a eficácia do jogo de passes curtos dos espanhóis. Posso estar enganado, mas creio que a Espanha não passará dos quartos de final.

Quanto ao Brasil, está a demonstrar que uma competição destas é sempre diferente de jogos individuais. O Brasil não estava bem antes da última Copa América, mas ganhou a competição dando bailinhos. Não tem estado bem, mas está a jogar o melhor futebol da Taça das Confederações. No fim de contas, o que vai ser importante é o equilíbrio da equipa, a qualidade dos jogadores e a vontade. Por fim, o Brasil é a única equipa que venceu um Mundial fora do seu continente.

Equipas a observar serão, muito provavelmente, a Alemanha (como sempre), a Inglaterra (um treinador a sério como Capello faz muita diferença) e a Costa do Marfim (que pode ir muito longe). Se a Argentina chegar ao Mundial pode fazer estragos. Equipas surpresa? Rússia novamente, Egipto e Sérvia são possibilidades. Para ver daqui a um ano.