Agora que passam 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim anda muita gente a falar do assunto nos seus blogues. Dos mais interessantes nesse aspecto (como noutros) é o
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No meu caso, limito-me a repescar um post que escrevi há mais de 4 anos, a 21 de Outubro de 2005, no meu primeiro blogue (já defunto): À Deriva. Aqui fica.
Berlim, uma história Pop
Dentro de cerca de um mês cumprir-se-à um ano de uma memorável viagem que eu, o Postini e uma amiga nossa - cujo nome, como é de bom tom nas histórias pop, não se menciona - fizemos a Berlim. Viagem? Deveríamos chamar a isto uma romaria. Afinal de contas, o leit-motiv, driving-force, raison d'être desta viagem foi um dos artistas maiores deste - e de outros - género: Tom Waits, que se apresentava em três espectáculos únicos - num sentido muito especial.
Como os espectáculos foram de segunda a terça, o fim de semana serviu para ver Berlim e, num arrebatamento, viver dois momentos que talvez apenas aí se possam viver: uma noite - sábado - com um espectáculo DJ de soul - do bom, não xaroposo - e outra - domingo - com concerto memorável de um ícone próprio de Berlim - Nick Cave, muito por cortesia de Wim Wenders e Blixa Bargeld.
Nestes dois eventos, associados a Tom Waits, bem como nos passeios pela cidade, foi possível ver e sentir a história e vida da mesma. Berlim, por si mesma, não foi uma cidade marco na história pop até há pouco tempo. A História em si mesma passou demasiado por aqueles lados para permitir que algo tão comezinho como a pop pudesse ser sentido de forma marcante. Isto não significa, no entanto, que a História em si mesma tenha sido pop. Afinal, os ingredientes estão todos lá.
Os mais óbvios são os ícones: o Muro, o Reichstag, o Checkpoint Charlie, a Siegesäule ou mesmo os Trabant. Por outro há as imagens, vistas e revistas em dezenas, centenas de fotografias e pinturas alusivas à cidade e que retrataram, em cada momento, a sua vida. Há ainda as frases "Ich bin ein Berliner", por exemplo. Há, por fim, a história dos excessos e da dualidade: um mundo livre, símbolo dessa mesma liberdade e vítima dos seus excessos, a par com um outro mundo, mais reprimido mas, precisamente devido a essa repressão, mais inventivo e criativo como forma de passar a sua mensagem. Há também as emoções: lágrimas de dor e felicidade, amor e ódio, vidas e mortes. E há o símbolo máximo: as duas cidades, ícones por direito próprio, como duas faces da mesma moeda. Quem não vê aqui uma dualidade Beatles/Beach Boys ou, recentemente, Oasis [sic]/Blur? Note-se que até mesmoa idade desta história - cerca do início dos 50, acompanha a Pop, lado a lado, de mão dada. As semelhanças são tão grandes que fica a questão se a Pop inspirou a imagem de Berlim, se Berlim inspirou a imagem da Pop.
Tudo isso me passou pela cabeça há um ano atrás. Desde o momento em que chegámos e o nosso primeiro Trabant. No momento em que, fora do recinto onde iria ser o memorável concerto de Nick Cave, comprámos um bilhete numa candonga que, apesar de tudo, não era cara. Vimos isso numa ida à Siegesäule - Coluna da Vitória - onde não pudemos entrar porque estava fechada, quais aspirantes pop que perderam a oportunidade por falta de timing. Mesmo nos espectáculos o vimos: Soul numa discoteca na parte oriental, com sons e ambiente retro, num concerto de Nick Cave com primeiras partes de uma banda a soar a Tuxedomoon ou Crime and the City Solution e uma segunda muito experimental que definimos como Lenita Gentil a acordar um dia e julgar que era Nina Hagen.
Por fim, veio o mestre. Tom Waits himself. Um concerto para o qual as palavras não chegam. Um concerto que nos fez, após terminar, ficar ainda longo tempo junto à porta de entrada nos bastidores à espera de o ver, de lhe dirigir umas palavras. Um concerto numa sala que exalava fausto na opulência da plateia e camarotes e Fausto no contraste entre estes e o palco, negro como breu e moldável á nossa vontade. No fim, depois de um concerto que me proporcionou a minha primeira experiência religiosa, estávamos prontos para o crash emocional. E para o Postini foi o que aconteceu. Ainda hoje penso que não chegámos mesmo a sair de Berlim. Acho que ninguém alguma vez deixa aquela cidade.