
Caros Srs. Joaquim Vieira e José Manuel Fernandes,
escrevo motivado pelo editorial de hoje, da autoria do Director, o Sr. José Manuel Fernandes (JMF). O motivo que me leva a escrever é a questão dos três manifestos, como os denomina JMF, «
sobre política económica e investimentos públicos». Estes manifestos têm recebido da parte da comunicação social (na qual englobo os blogues) um dose elevada de atenção nas últimas semanas. A forma como o Público e o seu director trataram o segundo dos manifestos levantou até uma polémica, considerando muitos (onde me incluo, embora com menos veemência) que JMFdeu procedeu de forma incorrecta quanto à forma como o noticiou e comentou. Não vou, contudo, entrar agora por este caminho. A única nota que deixo prende-se com a forma como decidiu responder ao seu próprio colunista, Rui Tavares, na edição onde este atacava a situação. Isso demonstrou falta de respeito, de coragem e até de cultura democrática.
Aquilo que despoletou este comentário, no entanto, é o tratamento dado aos manifestos (agora três) dado por JMF no seu editorial. Escreve a dada altura JMF:
«
o importante é centrar o debate nas propostas feitas e não em quem as formula, mesmo sabendo que uma foi avançada por economistas de vários espectros políticos, outra por académicos que se situam entre a ala esquerda do PS e a esquerda radical e esta por um grupo de pessoas de diferentes proveniências que procuram, sobretudo, apoiar as escolhas do Governo»
Ou seja, apesar de JMF pretender não centrar o assunto nas pessoas, acaba por o fazer à partida. Aponta o segundo manifesto à esquerda radical (presumo que qualquer partido à esquerda do PS seja "radical"). Pior, a "académicos", ou seja, usa um termo que é identificado frequentemente com pessoas desligadas da realidade, que se sentam nos seus gabinetes e analisam abstractamente os textos e relatórios escritos por outras pessoas como eles. Ou seja, gente que vive num outro micro-cosmos. Não é esta a interpretação de português mas é, sem ingenuidades, esta a intepretação que lhe é dada.
Já o terceiro manifesto virá de pessoas que poderão ser de diversas proveniências mas que serão essencialmente pessoas ligadas ao governo (em si não desqualifica nada). O pior é que, antes, cola este manifesto ao lobby das obras públicas, ao escrever «
[o manifesto preenche o espaço de] alguns empresários ligados às obras públicas: (...) [o] actual presidente da Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas, está entre os seus subscritores».
Comparemos isto com o primeiro manifesto, subscrito por «
economistas de vários espectros políticos», formulação sóbria, "respeitável" (peçamos emprestada a formulação de Vítor Constâncio) e neutra, que certamente só quererão o bem do país.
Em resumo, temos que o primeiro manifesto é bom, o segundo é mau e o terceiro menos mau. Não discuto a opinião de JMF, que a deve ter e a deve transmitir, mas considero a sua forma de abordar o debate, pela via pessoal e da desvalorização pessoal, como indigna de um director de um jornal como o Público.
Ao longo dos anos tenho visto o Público a ser um espaço de debate aberto, plural e desassombrado. Recordo o editorial de Vicente Jorge Silva, quando inaugurou a expressão "geração rasca" para se referir a uma geração da qual faço, tngencialmente, parte. Não tenho, mesmo hoje, razão para me incomodar com aquele editorial. Foi escrito em face de factos e com uma argumentação. Discorde-se ou não, era correcto e assumia uma postura de acordo com o que defendia no texto.
Não é o caso do que tem surgido no Público, jornal que tem publicado cada vez mais textos de opinião de qualidade duvidosa, com critérios editoriais que seguem o mesmo caminho (recordo que, no passado, questiounei a razão de ser do destaque dado a um livro de João Carlos Espada, conhecido liberal, opinião partilhada por JMF). Admito, são avaliações pessoais. Já o editorial de hoje não o é. É um editorial que propõe fazer algo não pessoalizar uma discussão) e faz de imediato o oposto. Tem uma atitude que, mais que indigna, é vergonhosa, para mais quando surge no seguimento de uma polémica sobre o mesmo tema. A um director do Público (de um jornal em geral, mas falo do Público por ser o "meu" jornal há década e meia) exige-se respeito e educação. JMF não demonstrou nenhuma destas qualidades, antes as descartou completamente.
Pois bem, esta terá sido a gota de água. A minha assinatura do Público online (com acesso ao Público PDF) expira nos próximos dias. Não a renovarei. Custa, é verdade, deixar de comprar o jornal que leio há tanto tempo, mas quando o jornal deixa de ser "o meu jornal", creio que é a melhor atitude. Continuarei a lê-lo, mas não mais a assinar. Será indiferente para os senhores, apenas uma gota no oceano, mas é para mim um acto simbólico (e não é pelo dinheiro, o qual posso facilmente dispensar). Lamento fazê-lo, mas o declínio na qualidade e a falta de respeito do director do Público para com as pessoas sobre quem escreve, para com os seus leitores ou simplesmente para com quem não está no mesmo campo ideológico levam-me tal decisão.
Os meus melhores cumprimentos e as melhores felicidades para um Público que espero que entre por outros caminhos.
Josão Sousa André