Production value!
A frase acima é o essencial que fica do novo delírio de J.J. Abrams, Super 8. Muito se tem escrito sobre a homenagem aos filmes dos anos 80, a Goonies, a Encontros Imediatos do Terceiro Grau, a E.T., etc. O problema é que o filme, pegando nessas homenagens, não sai delas e apenas lhes adiciona tralha.
O essencial do filme é resumido quase no início, quando uns miúdos a fazer um filme caseiro sobre zombies decidem ir filmar à noite para uma estação de comboios (na verdade um casebre ao lado da linha, mas não sejamos esquisitos com lugarejos no meio do Ohio de 1979). À medida que vão filmando, o realizador e argumentista, o miúdo anafado destas histórias, vê um comboio a aproximar-se e grita «Production value!», ou seja, algo que podem usar para aumentar o impacto do filme (e sem gastar dinheiro).
E é isto que Abrams quer enfiar em todo o lado no filme. Comboios de carga a voar depois de acertarem numa carrinhita, carros a serem esmagados por sabe-se lá o quê, autocarros a serem virados, tanques e soldados a dispararem em todas as direcções, carros destrúídos depois de chocarem com outros estacionados quando seguiam a uns 20 km/h, lança-chamas, cidades evacuadas, etc. A lista não acaba. Ao menos o miúdo anafado tem a desculpa de usar aquilo que lhe aparece à frente por não ter dinheiro. Abrams nada nele. Tem dinheiro a mais.
Como sempre nos seus filmes, Abrams não faz a mínima ideia daquilo que quer contar, apenas tem noção das homenagens que quer fazer, do estilo que quer usar e do espectáculo que quer montar. A história é pouco importante. As personagens são unidimensionais (pelo menos os adolescentes têm uma desculpa), as situações pouco credíveis (Abrams e a realidade têm uma relação difícil) e não há uma mensagem. Li algures que a palavra "inocência" poderia descrever o filme. Talvez, mas não é a dos personagens nem a do realizador, apenas a dos espectadores para verem isto.
Não é que o filme seja mau, mas não é possível esquecer que se está a ver um filme em 2011. Os filmes acima citados eram filhos do seu tempo e não o tentavam esquecer. Este é um filme fora do tempo. Tem brilho a mais, luzes a mais, explosões a mais. Production value! a mais. É o mesmo problema que Abrams teve com Mission Impossible III e com Star Trek. Quer contar histórias antigas com sabor moderno. Não funciona. Como há muito que outros realizadores demonstram, o essencial é começar por contar histórias modernas com sabor antigo. Uma dieta de Clint Eastwood vinha mesmo a calhar para evitar estes mastodôncios.


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