As razões para a emigração foram, inicialmente, a vontade de uma nova experiência (para o estágio na Alemanha) e a vontade de desafios (para o doutoramento) que não encontrava em portugal. A mentalidade portuguesa, que conhecia de várias empresas (tive contacto ao longo dos anos com muito do tecido empresarial português), era tacanha e praticamente fechada à inovação. Isso vê-se na forma como quase nenhuma empresa de tecnologia consegue de facto inovar em Portugal. Não há incentivos e a I&D é demasiado cara. Isso contrastou sempre com aquilo que eu vivi e senti nos outros países.
Para mais, os conhecimentos científicos e teóricos de alguém saído da universidade não eram desprezados. Portugal é um país onde se trata (incorrectamente) por doutor alguém cujo diploma ainda não tem a tinta seca, mas cuja opinião não é tida em conta. É frequente ver directores a dizer que engenheiro tal (e aqui falo das áreas que melhor conheço) tem que "desaprender" aquilo que aprendeu na universidade. Não digo que quem sai da universidade vai capaz de começar de imediato o trabalho. Não vai. Ninguém é capaz disso numa nova função, independentemente da sua experiência anterior. O que falta é, no entanto, a vontade de reconhecer que a pessoa que chega é alguém que deve trazer uma mais valia, que pode tentar aplicar esses conhecimentos para a melhoria da empresa.
Isto para quem tem um curso (digamos de 5 anos, licenciatura antiga, mestrado novo). Quem tenha um doutoramento, curiosamente, é ainda mais ostracizado. É visto como um académico, sem noção da realidade empresarial. Apenas um engenheiro (caso específico) a quem tem que se pagar mais. É portanto frequente ver candidatos a uma posição a preferirem dizer que estiveram 4 anos sem fazer nada a dizer que têm um doutoramento.
Isto não quer dizer que "cá fora" se dê uniformemente valor à formação. Depende muito dos países. Na Holanda tenta nivelar-se tudo e a posse de um diploma de doutoramento não é motivo de grande valorização. Já a Alemanha dá muito mais importância a esse facto. Aquilo que é comum, no entanto, é a não-ostracização de quem tenha os conhecimentos.
Isto resulta de uma política complexa, que apoia a investigação e desenvolvimento. Na Alemanha as universidades técnicas servem de centros de investigação para as empresas. Na Holanda, quando o governo apoia um projecto de investigação, pede uma "comissão de utilizadores", com empresas que estejam interessadas no resultado do trabalho. Também ficam normalmente cobertas as despesas para patentear um conceito ou tecnologia, mesmo que o beneficiário da patente seja uma das empresas. Para mais, os projectos têm um plano de financiamento que contempla não só os salários dos investigadores (sim, salários, não são bolsas), mas também custos com equipamento e material, porque é preciso mais do que cérebro para fazer ciência. Tudo isto incentiva a investigação e o desenvolvimento tecnológico.
Infelizmente nada disto se passa em Portugal. E são essas as razões, mais que qualquer questão relacionada com salários, que provoca o êxodo. Sei que foi isso que provocou o meu. E se pensei muitas vezes em voltar para tentar ajudar o meu país, a cada vez que penso nisso só encontro aquilo que me parecem razões para dele fugir.
(continua mais tarde com a vivência).


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