Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Testemunho pessoal da emigração - a vivência


Ora, pois para começar um ano novo, um tema velho: volto à minha experiência pessoal com a emigração.

Um dos comentários que ouvi muito quando saí do país foi «Eu não teria coragem». Na altura desvalorizava essa ideia, da coragem, como apenas uma desculpa dada por amigos e conhecidos para não seguirem os meus passos. Não que fosse uma desculpa para eles mesmos, mas antes uma justificação dada para me aplacar, ao estilo de «Não sei para que se há-de sair, mas não o vou agora ofender». Ao fim destes anos fora, parece-me que eram os meus amigos, sem a minha experiência, que melhor tinham avaliado a situação.



Fora a experiência do Leonardo da Vinci, quase que em ambiente controlado, é quando vou para a Holanda para o doutoramento que tenho a primeira experiência séria com o conceito de emigração. Não tinha data de regresso para daí a um ano e sabia que, após o doutoramento, poucas oportunidades acabaria por ter em Portugal. Era um bilhete essencialmente de ida e eu sabia-o já. Era mesmo uma escolha.

Chegado à Holanda, no entanto, veio a experiência confortável. Ao contrário de muitos outros grupos de investigação no país, o meu era internacionalmente diverso, inclusivamente na composição do grupo de professores, e a língua que dominava era o inglês. Ouvia-se o holandês - língua que me soava a tempos alemão falado por ingleses ou inglês falado por alemães - mas apenas a espaços e interrompido quando os estrangeiros se aproximavam. Fiz os meus amigos, entrei no clube de basquetebol da universidade (onde o inglês continuou a ser presença permanente, até nas indicações do treinador, com outros estrangeiros na equipa) e aprendi a língua. O país facilitava. Ao contrário da Alemanha, a Holanda é um país onde a esmagadora maioria dos habitantes fala inglês. A televisão e o cinema vêm na língua original com legendas e, sendo a esmagadora maioria dos programas estrangeiros em inglês, isso facilitava a vida a um emigrante.

Foram 4 anos simples e agradáveis, num ambiente protegido. Não tinha um núcleo de amizades portuguesas por perto, mas a experiência pessoal e profissional supriam essa lacuna. Ao fim dos 4 anos mudei-me de armas e bagagens para outra cidade e comecei a trabalhar noutra, a 100 km de distância. Na empresa onde trabalhava, apesar de ter colegas simpáticos, tive o primeiro choque. Apenas dois colegas eram estrangeiros: um alemão que fora também colega de doutoramento e uma belga da Flandres, que para todos os efeitos era holandesa. A língua falada era o holandês - que na altura já dominava suficientemente para uso no trabalho - e a cultura tipicamente holandesa.

E é aqui que se começam a notar as diferenças. No grupo de investigação onde estava, muitas pessoas partilhavam os mesmos problemas e experiências. Isso dava-nos (a todos) um sentimento de pertença, evitava a solidão e a amargura. De repente essa rede de segurança desapareceu. A pessoa com quem vivo é felizmente alguém que partilha a minha experiência, por isso facilita a vida, mas isso não afasta o facto de, com a mudança, ter desaparecido toda uma rede social construída ao longo do 25 anos anteriores.

Não é um comentário fácil. durante muito tempo neguei essa evidência ao mesmo tempo que muitos ma repetiam. Foi com a mudança que notei o quão frágeis eram os meus laços à rede social que construíra neste país. Não vale a pena criticar a sociedade holandesa, a qual tem regras construídas pelos seus habitantes que delas gostam. É, contudo, uma sociedade quase hermeticamente fechada aos estrangeiros, os quais se guetizam entre si para poder construir laços sociais.

Sair do país é, portanto, uma experiência muito complicada. Os amigos que ficaram acabam por se tornar memórias algo fantasmagóricas, não por opção de qualquer das partes, mas simplesmente porque cada um segue a sua vida e sem contacto pessoal não se cultiva a amizade. Apenas se mantêm alguns com quem se continua a partilhar os melhores e piores momentos da vida e os outros, infelizmente, tornam-se pessoas com quem se vai tendo contacto de tempos a tempos pelas redes sociais e e-mails. E isto apenas pelo lado dos amigos.

Há depois as questões práticas: burocracia, bancos, médicos (como comunicar certos sintomas ou perceber certas doenças que não têm tradução óbvia?), busca de casa, compra de carro, etc. Há também então as regras sociais, as quais não podemos quebrar sob pena de sermos classificados como difíceis ou não integrados. Há a questão da língua, claro, mas também do clima, do mês de Novembro vivido sob um manto cinzento sem sol ou chuva, dos verões de uma semana e de calor húmido, de aprender a andar de bicicleta para todo o lado mesmo quando chove ou neva. E a falta daqueles elementos muito pessoais que nos confortam: uma certa comida, uma actividade, um amigo, um programa, uma caminhada específica, etc.

Não nos enganemos: a vida de emigrante, correndo o risco de soar óbvio, não é fácil. Não é uma experiência difícil que se vai tornando mais fácil com o tempo, é antes feita de altos e baixos, dependendo dos momentos. Como eles são vividos e como se sobrevive a eles varia com cada pessoa, mas nunca se menospreze a experiência. É verdade que em muitos aspectos a vida se torna mais fácil. Noutros torna-se mais difícil. Sabendo na altura o que sei hoje, provavelmente continuaria a tomar a decisão de emigrar, mas não recomendo tal opção a qualquer pessoa.

É o meu testemunho. Para o que valha.